Homeopatia: entenda a ciência, os princípios e quando pode ser indicada

Introdução
A homeopatia é, sem dúvida, um dos temas mais debatidos na área da saúde. Há quem jure pelos seus benefícios e quem a rejeite completamente. Neste artigo, não vamos tomar partido — vamos explicar o que a homeopatia realmente é, como funciona segundo seus princípios, qual o seu status regulatório no Brasil e em quais situações médicos podem indicá-la.
Nosso objetivo é um só: fornecer informação clara e honesta para que você possa tomar decisões informadas junto ao seu médico.
O que é homeopatia — os princípios fundamentais
A homeopatia foi sistematizada pelo médico alemão Samuel Hahnemann em 1796. Trata-se de um sistema terapêutico baseado em três princípios fundamentais:
1. Similia similibus curantur (semelhante cura semelhante)
O princípio central da homeopatia propõe que uma substância capaz de provocar determinados sintomas em uma pessoa saudável pode ser utilizada, em doses especiais, para tratar sintomas semelhantes em uma pessoa doente.
2. Dinamização (potencialização)
Os medicamentos homeopáticos passam por um processo de diluições seriadas acompanhadas de sucussão (agitação vigorosa) a cada etapa. Existem diferentes escalas:
- CH (centesimal Hahnemanniana): cada diluição é de 1:100. Uma potência 6CH significa que a substância foi diluída 1:100 seis vezes consecutivas.
- DH (decimal Hahnemanniana): cada diluição é de 1:10.
3. Individualização do tratamento
Na homeopatia, trata-se a pessoa, não a doença isoladamente. Dois pacientes com o mesmo diagnóstico podem receber medicamentos completamente diferentes, baseados na totalidade dos seus sintomas, temperamento, modalidades (o que melhora ou piora os sintomas) e características individuais.
Regulamentação no Brasil
Independentemente do debate científico, a homeopatia opera dentro de um arcabouço regulatório completo no Brasil. Isso é importante para entender o cenário:
- O CFM (Conselho Federal de Medicina) reconhece a homeopatia como especialidade médica desde 1980 (Resolução CFM 1000/1980). Médicos homeopatas são profissionais com CRM e título de especialista.
- O CFF (Conselho Federal de Farmácia) reconhece a homeopatia como especialidade farmacêutica.
- O SUS oferece tratamento homeopático desde 2006, por meio da PNPIC (Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares).
- A ANVISA regulamenta os medicamentos homeopáticos pela RDC 26/2007 — são medicamentos registrados, não suplementos.
- Farmácias homeopáticas seguem normas específicas da ANVISA (RDC 67/2007, Anexo VII), com requisitos rigorosos de boas práticas de manipulação.
O debate científico — honestidade necessária
Não seria honesto falar de homeopatia sem abordar o debate científico. Revisões sistemáticas de grande porte — como as da Cochrane e do NHMRC (Conselho Nacional de Saúde e Pesquisa Médica da Austrália) — não encontraram evidências robustas de que a homeopatia seja superior ao placebo para a maioria das condições avaliadas.
No entanto, é preciso considerar alguns pontos:
- Alguns estudos individuais mostram resultados positivos. Possíveis explicações incluem o efeito da consulta terapêutica em si e a dificuldade de avaliar tratamentos individualizados em ensaios clínicos randomizados (RCTs) padronizados.
- O modelo de consulta homeopática tem valor terapêutico próprio. Consultas longas, detalhadas e holísticas promovem acolhimento e escuta ativa — fatores reconhecidamente importantes em qualquer relação terapêutica.
- Ausência de evidência não é evidência de ausência — mas também não comprova eficácia. É uma distinção importante.
- Muitos pacientes relatam melhora subjetiva — e isso deve ser respeitado, sem ser superestimado.
Quando médicos homeopatas costumam indicar
Médicos homeopatas — profissionais com CRM e especialização reconhecida — costumam considerar a homeopatia como abordagem complementar nas seguintes situações (descrever a prática clínica não significa prometer resultados):
- Condições crônicas recorrentes: rinite alérgica, sinusite de repetição, infecções recorrentes das vias aéreas
- Distúrbios emocionais e do sono: ansiedade e insônia, como complemento ao tratamento convencional
- Pediatria: pais que buscam abordagens com menor risco de efeitos colaterais para seus filhos
- Dermatologia: eczema, dermatite atópica e outras condições cutâneas crônicas
- Geriatria: em pacientes polimedicados, como possível forma de reduzir a carga medicamentosa convencional — sempre sob supervisão médica rigorosa
Como são preparados os medicamentos homeopáticos
A preparação de medicamentos homeopáticos é um processo farmacotécnico que exige precisão, conhecimento e rigoroso controle de qualidade. Veja como funciona:
O processo de preparação
- 1Tintura-mãe (TM): a substância de origem (vegetal, mineral ou animal) é preparada como insumo inicial, geralmente por maceração em solução hidroalcoólica.
- 2Diluições seriadas: a tintura-mãe é diluída na escala prescrita (CH, DH ou outra), utilizando solvente adequado.
- 3Sucussão: a cada etapa de diluição, o frasco é submetido a agitações vigorosas (sucussões). Este passo é considerado essencial na teoria homeopática.
- 4Impregnação: a solução dinamizada é incorporada à forma farmacêutica final.
Formas farmacêuticas
- Glóbulos: pequenas esferas de sacarose impregnadas com a solução dinamizada — a forma mais tradicional
- Gotas: solução hidroalcoólica dinamizada
- Tabletes e comprimidos: formas sólidas alternativas
- Pós: doses unitárias em papel farmacêutico
Qualidade e conservação
- Todo o processo segue a Farmacopeia Homeopática Brasileira (3ª edição)
- Armazenamento: proteger de calor, luz e odores fortes (substâncias voláteis podem contaminar os medicamentos)
- Prazo de validade: geralmente 1 a 2 anos para preparações corretamente armazenadas
- O papel do farmacêutico é garantir diluição correta, técnica adequada de sucussão e ausência de contaminação cruzada
Homeopatia vs Fitoterapia — uma confusão comum
Muitas pessoas confundem homeopatia com fitoterapia. Embora ambas possam utilizar plantas como ponto de partida, são práticas fundamentalmente diferentes:
- Fitoterapia: utiliza plantas medicinais em doses materiais, com compostos ativos mensuráveis. Possui evidência científica robusta para diversas aplicações. Exemplo: a Valeriana officinalis é utilizada para ansiedade e insônia, com estudos clínicos sobre o ácido valerênico.
- Homeopatia: utiliza substâncias extremamente diluídas e dinamizadas, provenientes dos reinos vegetal, mineral e animal. Opera sob um referencial teórico próprio, distinto da farmacologia convencional.
Como iniciar um tratamento homeopático
Se você e seu médico decidirem que a homeopatia pode ser uma abordagem complementar adequada, o caminho é o seguinte:
- 1Consulta com médico homeopata — profissional com CRM e especialidade reconhecida pelo CFM
- 2Avaliação detalhada — a consulta homeopática costuma durar de 1 a 2 horas, abrangendo histórico completo, sintomas, hábitos, temperamento e particularidades individuais
- 3Prescrição individualizada — o medicamento, a potência e a posologia são escolhidos especificamente para você
- 4Manipulação na farmácia homeopática — O Hervanário é autorizado pela ANVISA para manipulação de medicamentos homeopáticos
- 5Acompanhamento regular — retornos periódicos com o médico para avaliação e ajustes
Ficou com alguma dúvida?
Nossa equipe farmacêutica está pronta para ajudar com orientação personalizada.
Aviso: Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta com profissional de saúde qualificado. Medicamentos manipulados requerem prescrição médica. Consulte seu médico ou dermatologista para orientação individualizada.
Autora: Dra. Debora Campanha — CRF-SP 107.277 | Farmacêutica Responsável, O Hervanário


