Dermocosméticos

Dermocosméticos personalizados: como montar sua rotina ideal

Dra. Cibele Araujo MaiaCRF-SP 5224714 Fev 20267 min de leitura
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Dermocosméticos personalizados: como montar sua rotina ideal

1. Por que cada pele pede algo diferente

Você já comprou um sérum caro, indicado por uma amiga ou influenciadora, e sentiu que não fez absolutamente nada pela sua pele? Ou pior — irritou, causou espinhas, deixou o rosto ardendo? Você não está sozinha. Esse é o problema fundamental dos dermocosméticos industrializados — e funcionam bem para muitas pessoas. Mas cada pele tem suas particularidades.

Ao formular para um público amplo, as concentrações dos ativos ficam em faixas "seguras" (leia-se: baixas demais para muitos, altas demais para outros). O pH é otimizado para estabilidade e longa validade. O veículo — creme, gel, sérum — é escolhido por linha de produto, não pelo seu tipo de pele. O resultado? Dinheiro gasto em produtos que não entregam o que prometem.

É aqui que entra a manipulação magistral. Quando o dermatologista prescreve uma fórmula, ele está pensando especificamente na sua pele — no seu grau de oleosidade, na sua sensibilidade, nas suas queixas. E o farmacêutico magistral traduz essa prescrição em um produto feito sob medida: o ativo certo, na concentração exata, no veículo ideal, com o pH adequado.


2. Entendendo sua pele — além de "oleosa" ou "seca"

Classificar a pele apenas como "oleosa", "seca", "mista" ou "normal" é uma simplificação que já não atende à dermatologia moderna. A pele é multifatorial — e entender essas camadas é o primeiro passo para uma rotina que funcione de verdade.

Os fatores que importam

  • Fototipo (escala de Fitzpatrick): determina como sua pele reage ao sol e influencia o risco de hiperpigmentação pós-inflamatória. Peles mais escuras (fototipos IV-VI) exigem cuidado especial com ativos irritantes.
  • Oleosidade vs. hidratação: são coisas diferentes! Uma pele pode produzir sebo em excesso (oleosa) e ainda assim estar desidratada (falta de água). Esse quadro — oleosa desidratada — é extremamente comum e frequentemente maltratado com produtos adstringentes que pioram a desidratação.
  • Sensibilidade e função de barreira: a barreira cutânea (camada córnea + manto lipídico) é a primeira linha de defesa da pele. Quando comprometida, qualquer ativo pode irritar. Restaurar a barreira é prioridade antes de introduzir tratamentos.
  • Queixas específicas: acne, envelhecimento, melasma, rosácea — cada condição exige uma abordagem diferente, com ativos, concentrações e veículos específicos.
O sistema de tipagem de Baumann classifica a pele em 16 tipos combinando 4 eixos: oleosa/seca, sensível/resistente, pigmentada/não-pigmentada e propensa a rugas/firme. É uma abordagem mais completa que a classificação tradicional e pode auxiliar o dermatologista na escolha dos ativos. Pergunte ao seu médico sobre esse sistema na próxima consulta.

3. Os ativos mais prescritos — e por que a manipulação faz diferença

Vamos aos protagonistas da dermocosmética prescritiva. Para cada ativo, explico o mecanismo de ação, para quem é indicado e a vantagem da formulação manipulada.

🧪 Ácido hialurônico (0,1–2%)

O ácido hialurônico (AH) é um glicosaminoglicano naturalmente presente na pele, capaz de reter até 1.000 vezes seu peso em água. O que pouca gente sabe: ele existe em diferentes pesos moleculares, e cada um atua em uma profundidade diferente.

  • Alto peso molecular: forma um filme hidratante na superfície da pele, contribuindo para hidratação imediata e sensação de conforto.
  • Médio peso molecular: penetra na epiderme, auxiliando na hidratação intermediária.
  • Baixo peso molecular: alcança camadas mais profundas, podendo estimular a produção natural de AH pela pele.
Vantagem da manipulação: podemos combinar dois ou três pesos moleculares em uma única fórmula, algo menos comum em produtos prontos. O resultado é uma hidratação em múltiplas camadas da pele.

🧪 Niacinamida — Vitamina B3 (4–10%)

A niacinamida é um dos ativos mais versáteis da dermatologia atual. Estudos indicam que ela pode auxiliar em múltiplas frentes: regulação da produção de sebo, fortalecimento da barreira cutânea, redução da aparência de poros dilatados e ação anti-inflamatória. Indicada para praticamente todos os tipos de pele — de oleosa a sensível.

Na manipulação, ajustamos a concentração com precisão: 4-5% para peles sensíveis que precisam de suporte de barreira, 10% para controle de oleosidade mais expressivo. Pode ser associada a outros ativos como ácido hialurônico e ácido tranexâmico sem incompatibilidades relevantes.

🧪 Retinol e Tretinoína

Os retinoides são considerados referência em tratamento do envelhecimento cutâneo, com décadas de estudos clínicos. Para entender as diferenças, é preciso conhecer a via metabólica: o retinol (cosmético) é convertido em retinaldeído, que é convertido em ácido retinoico (tretinoína) — a forma ativa na pele. A cada etapa de conversão, perde-se potência.

A tretinoína (uso sob prescrição) atua diretamente nos receptores nucleares, contribuindo para renovação celular, estímulo de colágeno e tratamento de acne e fotoenvelhecimento. O retinol é a opção cosmética — menos irritante, porém com ação mais gradual.

Vantagem da manipulação: concentrações precisas e graduais — tretinoína 0,01%, 0,025%, 0,05% — permitindo introdução progressiva que respeita a tolerância da sua pele. Podemos ainda associar agentes calmantes (alantoína, bisabolol) na mesma fórmula para minimizar a irritação inicial.

🧪 Ácido glicólico e Ácido mandélico (AHAs)

Os alfa-hidroxiácidos (AHAs) promovem esfoliação química, auxiliando na remoção das células mortas da camada córnea e contribuindo para uma pele com textura mais uniforme. Dois dos mais prescritos são o glicólico e o mandélico — e a diferença entre eles importa muito.

  • Ácido glicólico: menor molécula entre os AHAs, penetra profundamente. Indicado para fotoenvelhecimento e textura irregular. Porém, é mais irritante e exige cautela em peles sensíveis ou de fototipos altos.
  • Ácido mandélico: molécula maior, penetração mais lenta e uniforme. Mais gentil, com menor risco de hiperpigmentação pós-inflamatória — o que o torna uma opção interessante para peles negras e pardas (fototipos IV-VI).
O pH é crucial para AHAs. Um AHA em pH acima de 4,0 tem ação esfoliante reduzida. Na manipulação, controlamos o pH com precisão e podemos trabalhar com ácido livre (mais ativo, mais irritante) ou parcialmente tamponado (mais gentil), conforme a tolerância da pele e orientação médica.

🧪 Ácido azelaico (15–20%)

O ácido azelaico é um ácido dicarboxílico com ação anti-inflamatória, antibacteriana e despigmentante leve. Estudos indicam que pode auxiliar no tratamento de acne, rosácea e hiperpigmentação. É especialmente valorizado para peles com rosácea, nas quais muitos outros ativos são contraindicados.

As concentrações terapêuticas (15-20%) raramente estão disponíveis em produtos de venda livre. Na farmácia de manipulação, formulamos na concentração prescrita pelo dermatologista, no veículo adequado ao tipo de pele.

🧪 Ácido tranexâmico tópico (3–5%)

O ácido tranexâmico é um dos ativos que mais ganhou espaço na dermatologia nos últimos anos, particularmente no manejo do melasma. Seu mecanismo é diferente dos despigmentantes tradicionais: ele inibe a ativação do plasminogênio nos queratinócitos, o que reduz a estimulação dos melanócitos pela radiação UV.

É um ativo que, em formulação tópica eficaz, é encontrado com mais facilidade na manipulação. A manipulação é, na prática, a principal via de acesso a esse tratamento prescrito por dermatologistas.


4. Veículos: o herói invisível da fórmula

Você pode ter o ativo perfeito na concentração perfeita — e ainda assim não ter resultado se o veículo não for o mais adequado. O veículo é a "base" onde o ativo é incorporado, e ele determina como o produto se espalha, absorve, e interage com a sua pele.

Tipos de veículos e indicações

  • Gel: base aquosa, oil-free. Toque seco, absorção rápida. Indicado para peles oleosas e acneicas. Não obstrui poros.
  • Creme: emulsão (pode ser O/A — óleo em água — ou A/O). Nutre e auxilia na restauração da barreira. Indicado para peles normais a secas.
  • Loção: emulsão mais fluida que o creme. Espalha facilmente em áreas extensas (corpo, membros). Boa opção para uso corporal.
  • Sérum: veículo concentrado de textura leve, com alta penetração. Ideal para ativos que precisam alcançar camadas mais profundas. Absorção rápida, toque não oleoso.
  • Gel-creme: híbrido que combina o toque leve do gel com a hidratação do creme. Opção versátil para peles mistas.
Na manipulação, o farmacêutico seleciona o veículo com base no seu tipo de pele e no ativo prescrito — não na linha de produtos disponível. Um mesmo ativo pode ter resultados completamente diferentes dependendo do veículo escolhido.

5. Montando a rotina — manhã e noite

Uma rotina de cuidados com a pele não precisa ser complexa, mas precisa ter lógica. Abaixo, um framework prático que pode ser adaptado conforme orientação do seu dermatologista.

☀️ Rotina da manhã

  1. 1Higienização — sabonete facial adequado ao seu tipo de pele (gel para oleosa, mousse ou leite para seca)
  2. 2Tônico (opcional) — auxilia no equilíbrio do pH e prepara a pele para os ativos seguintes
  3. 3Sérum antioxidante — vitamina C é a referência. Contribui para proteção contra radicais livres e pode auxiliar na uniformização do tom
  4. 4Hidratante — restaura e mantém a barreira cutânea hidratada
  5. 5Protetor solar — FPS 30 no mínimo, reaplicar a cada 2-3 horas. Este é o passo inegociável da rotina

🌙 Rotina da noite

  1. 1Higienização dupla (se usou maquiagem/protetor solar) — primeiro um demaquilante ou óleo de limpeza, depois o sabonete facial
  2. 2Ativo principal — retinoide, AHA, ou ativo de tratamento prescrito pelo dermatologista. A noite é o momento para ativos fotossensibilizantes
  3. 3Hidratante/reparador — sela a hidratação e auxilia na recuperação da barreira durante o sono
Nem tudo precisa ser manipulado. Protetores solares industrializados, por exemplo, possuem tecnologia de filtros e texturas difíceis de replicar na manipulação. O papel do farmacêutico é justamente orientar quais etapas se beneficiam da personalização e quais já são bem atendidas por produtos prontos.

6. Erros comuns na rotina de skincare

Na farmácia, vemos esses equívocos com frequência. Evitá-los pode fazer tanta diferença quanto escolher os ativos certos.

❌ Usar ativos demais ao mesmo tempo

Retinol + AHA + vitamina C na mesma noite é receita para irritação, descamação e comprometimento da barreira. Cada ativo tem seu momento. O dermatologista organiza o protocolo; o farmacêutico pode orientar sobre a ordem de aplicação.

❌ Ignorar o pH dos produtos

A vitamina C (ácido ascórbico) precisa de pH baixo (2,5-3,5) para penetrar. A niacinamida funciona em pH neutro (5,0-7,0). Aplicar os dois em sequência imediata pode comprometer a absorção de ambos. A ordem de aplicação e o intervalo entre produtos importam.

❌ Trocar de produtos a cada duas semanas

O ciclo de renovação celular da pele leva aproximadamente 28 dias. Trocar de produto antes desse período não permite avaliar se ele está funcionando. Dê tempo à sua rotina — com exceção de reações adversas, que devem levar à suspensão imediata e consulta médica.

❌ Esquecer o protetor solar

Sem proteção solar adequada, a maioria dos ativos de tratamento (especialmente despigmentantes e retinoides) perde eficácia ou até piora o quadro. O protetor solar é o passo que protege todo o investimento da sua rotina.

❌ Comprar por indicação de influencer

O que funciona para uma pessoa pode não funcionar — ou até prejudicar — outra. Tipo de pele, fotoproteção, clima, uso de outros ativos: tudo influencia. Prescrição dermatológica individualizada continua sendo a abordagem mais segura.


7. O papel do farmacêutico magistral

Existe uma percepção de que o farmacêutico de manipulação "apenas mistura ingredientes". Na realidade, o trabalho é consideravelmente mais complexo e técnico.

Ao receber uma prescrição dermatológica, o farmacêutico:

  • Avalia a compatibilidade físico-química entre os ativos prescritos (alguns são incompatíveis entre si ou instáveis em determinadas combinações)
  • Seleciona o veículo adequado ao tipo de pele e aos ativos, garantindo estabilidade e penetração
  • Ajusta o pH para a faixa de ação de cada ativo
  • Orienta sobre aplicação, ordem de uso, armazenamento e prazo de validade
  • Controla a qualidade das matérias-primas e do produto final conforme as Boas Práticas de Manipulação (RDC 67/2007)
O farmacêutico magistral é o último profissional de saúde a avaliar a fórmula antes que ela toque a sua pele. Essa responsabilidade técnica é levada a sério em cada manipulação que realizamos no O Hervanário desde 1986.

Ficou com alguma dúvida?

Nossa equipe farmacêutica está pronta para ajudar com orientação personalizada.

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Aviso: Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta com profissional de saúde qualificado. Medicamentos manipulados requerem prescrição médica. Consulte seu médico ou dermatologista para orientação individualizada.

Autora: Dra. Cibele Araujo MaiaCRF-SP 52247 | Farmacêutica Responsável, O Hervanário

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